MACHADO DE ASSIS E DU BOIS: O CONCEITO DE "DOUBLE CONSCIOUSNESS"
Eliane Fernanda Cunha Ferreira - UFMG
Para Maria Nazareth Fonseca
Talvez algum dia no futuro, quando as desigualdades raciais estiverem erradicadas, quando o status racial fôr um ingrediente insignificante em nosso desenvolvimento psicológico e em nossa posição na sociedade, nós poderemos ignorar as nomenclaturas raciais, ou pelo menos considerar o fator raça menos como uma entidade substantiva e mais como uma das muitas categorias de adjetivos utilizadas para descrever a si próprio.[1]
Guilhermo Daniel, 1987.
Para contextualizar o hibridismo não só racial, mas intelectual de Machado de Assis, valho–me do conceito de "double consciousness" elaborado por William Edward Burghardt Du Bois, considerado "o principal intelectual negro da virada do século", de acordo com o sociólogo espanhol, Manuel Castells (1996, 1999: 76).[2]
Machado de Assis, desde sua infância, coexistiu diariamente com o mundo dos brancos e dos negros, dos ricos e dos pobres, dos donos de terras e dos agregados. Durante o dia, ele ficava no casarão de sua madrinha onde escutava as lições que o filho dela recebia. À noite retornava para seus modestos aposentos nos fundos da chácara do Livramento pertencente à rica senhora branca e educada. Assim, muito cedo, ele percebeu a prática do favor e as desigualdades de um mundo comandado pelos brancos.
Esse dúplice viver refletia o modus vivendi da sociedade brasileira escravista dos Oitocentos que lidava com as idéias do liberalismo europeu:
Éramos um país agrário e independente, dividido em latifúndios, cuja produção dependia do trabalho escravo por um lado, e por outro do mercado externo. [...] havíamos feito a Independência há pouco, em nome de idéias francesas, inglesas e americanas, variadamente liberais, que assim faziam parte de nossa identidade nacional (Schwarz: 1992: 14).
Machado viveu nesse período conflitante, de grandes transformações, de implantação de idéias novas vindas da Europa, de teorias científicas, econômicas, sociais e raciais. Na década de 50, quando começou a publicar seus primeiros textos literários, no Brasil, iniciou-se um movimento de mudanças que conciliava a modernização e a tradição. Segundo Maria Hilda Paraíso, essa década
é representativa da consolidação, em termos politico-administrativos, da vitória da burocracia estatal quanto a formulação e a constituição das políticas do Estado em detrimento dos projetos das elites econômicas regionais, constituindo-se, portanto, num período de consolidação do sistema politico imperial. Nesse contexto, o que se observa é o fortalecimento desse sistema de governo, a adoção de políticas voltadas para fortalecer a unidade territorial e o não reconhecimento da representatividade de alguns dos segmentos sociais até então dominantes. Esse quadro de crescente centralização do poder pode ser explicado, entre outros fatores, pela ausência de uma classe dominante suficiententemente forte e articulada para regular as relações sociais e intermediar as relações entre sociedade e Estado. […] É também um período de profundas mudanças na paisagem econômica do Império, por ser um momento de crise do sistema sócio-econômico, o qual se refletia nas idéias e se evidenciava na discussão sobre as propostas programáticas do Estado (1999:1).
Mas foi nos anos 70 que essas transformações afloraram com mais intensidade e os conflitos de toda ordem emergiram no processo de formação da identidade nacional. Essa década "é entendida como um marco para a história das idéias no Brasil, uma vez que representa o momento de entrada de todo um novo ideário positivo-evolucionista em que os modelos raciais de análise cumprem um papel fundamental" (Schwarcz, 1995: 14).
Essa "tendência da época que via na ciência não apenas uma profissão, mas uma espécie de sacerdócio; que valorizou a moda intelectual em detrimento da produção" (Schwarcz, 1995: 28) pode ser vislumbrada em uma cena da comédia machadiana, Lição de Botânica, de 1906, na qual a personagem – o barão sueco Sigismundo de Kernoberg – tem por objetivo afastar Henrique, seu sobrinho, de um possível envolvimento amoroso mais sério com a sobrinha de Leonor, Cecília, pois a ciência, segundo o barão, que é botânico, exige o celibato (LB, 1952: 324, v. 19). Como em sua família todos, de tios a sobrinhos são botânicos, ele não quer que Henrique seja uma exceção: "O padre desposa a igreja; eu desposei a ciência. Saber é o meu estado conjugal; os livros são a minha família. Numa palavra, fiz voto de celibato" (LB, 1952: 321-2, v. 19).[3]
Para Machado, os Oitocentos foram um "século esfalfado". Em crônica de 28 de fevereiro de 1897, ele escreveu:
Antes de cochilar, podia fazer um exame de consciência e uma confissão pública, à maneira de Sarah Bernardt ou de Santo Agostinho. Oh! perdoa-me, santo da minha devoção, perdoa esta união do teu nome com o da ilustre trágica; mas este século acabou por deitar todos os nomes no mesmo cesto, misturá-los, tirá-los sem ordem e cosê-los sem escolha. É um século fatigado. As forças que despendeu, desde pricípio, em aplaudir e odiar, foram enormes. Junta a isso as revoluções, as anexações, as dissoluções e as invenções de toda casta, políticas e filosóficas, artísiticas e literárias, até as acrobáticas e farmacêuticas, e compreenderás que é um século esfalfado (1952: 425-6, v. 28).
Note-se que Machado não se refere às teorias raciais, em voga, na época. De acordo com Thomas Skidmore, essas teorias não encontraram no Brasil o mesmo desenvolvimento que tiveram na Europa porque
o pensamento que gerava discussão aberta na Europa... chegava ao Brasil via de regra sem nenhum espírito crítico... Caudatários na sua cultura, imitativos no pensamento... os brasileiros de meados do século XIX, como tantos outros latino-americanos, estavam mal preparados para discutir as últimas doutrinas européias (in: Schwarcz, 1995: 16).
Tal despreparo pode ser explicado não só com relação ao atraso cultural do país, mas pelo "espetáculo das raças"[4] exibido pelo povo brasileiro. O cruzamento de raças desestabilizava a dicotomia branco/negro, pois um terceiro elemento surgia: o mulato, o mestiço, o híbrido. Este tipo era considerado indefinido, "deficiente em energia física e mental", de acordo com o ponto de vista do naturalista/viajante, suiço-americano, Louis Agassiz (in: Schwarcz, 1995: 13). É importante ressaltar que esse tipo de crença ficou latente durante 126 anos, podendo ser confirmada pela publicação, em 1994, do livro The Bell Curve, que escandalizou não apenas os Estados-Unidos da América mas todo o Mundo. Os autores, Charles Murray (sociólogo) e Richard Herrnstein (psicólogo), defenderam que "o quociente de inteligência dos negros é geneticamente inferior ao dos brancos" e afirmaram que "a sociedade americana está se polarizando entre uma "elite inteligente" e uma crescente subclasse de negros, latino-americanos e imigrantes de baixo QI". Essas foram as manchetes impressas com letras vermelhas garrafais no caderno MAIS! da Folha de São Paulo, em 30 de outubro de 1994. Porém, essas análises perdem sua validade na medida em que encontramos na figura de Machado de Assis, por exemplo, um genuíno representante dessa hibridação com capacidade mental inquestionável.
Assim, as críticas dos cientistas estrangeiros fizeram despertar no âmago da sociedade brasileira um sentimento de inferioridade, de estranhamento, de diferença a partir desse olhar estranho, e desta maneira surgiu o que se pode chamar de uma percepção dupla, de uma consciência dupla, que pode ser analisada sob o conceito de "double consciousness", de Du Bois.
No prefácio de seu livro The Souls of Black Folk, escrito em 1903, Du Bois introduz suas reflexões com as seguintes palavras:
Herein lie buried many things which if read with patience may show the strange meaning of being black here in the dawning of the Twentieth Century. This meaning is not without interest to you, Gentle Reader; for the problem of the Twentieth Century is the problem of the color-line. (1997: 603).[5]
No final do século XX, o problema da "color-line" foi solucionado? Se não, o que aconteceu? Minorias raciais, na era da 'globalização' tornaram-se notadamente visíveis. Manuel Castells demonstra em sua obra A Era da Informação: economia, sociedade e cultura (1999), que o poder da identidade se expandiu através da sociedade em rede. As ditas 'diferenças' não estão mais escondidas. Discussões dos conceitos de hibridez, mestiçagem e multiculturalismo estão na agenda da contemporaneidade. Mas o problema continua a existir.
Retrocedendo à metade do século XIX no Brasil, eu posso imaginar Machado de Assis como um 'mulato' vivendo no mundo dos brancos, lendo autores brancos, principalmente Shakespeare, e escrevendo 'textos brancos'. Teria ele, para se adaptar a esse mundo, tentado se branquear através de seus escritos e leituras? Na minha opinião, a cor de sua pele não poderia ser escondida nem ter sido branqueada através de suas leituras e muito menos o seu espírito, sua alma. Ele leu clássicos franceses, italianos, espanhóis, ingleses, norte-americanos, assim como a Bíblia, para tentar educar não somente a minoria elitista branca como a si próprio. Machado de Assis nas leituras dos Clássicos encontrou "food for thoughts" (alimento para os seus pensamentos). Em geral, nós lemos os Clássicos porque eles sempre oferecem infinitos assuntos para serem pensados. Um Clássico, como acentua Maria Zilda Cury baseando-se na definição de Italo Calvino, é:
Um livro que, nunca pondo termo ao que tem a dizer, vem até nós trazendo fortemente as marcas de leituras anteriores, como as que imprimiu na cultura que atravessou e que persistentemente, como um rumor, se faz ouvir no presente, mesmo numa época profundamente diferente daquela em que foi criado (1997: 232-3).
Para Machado de Assis a via para entrar no 'mundo civilizado' era a da educação. No seu caso, essa foi obtida pela leitura, pelo autodidatismo, não por viagens, por exemplo. Ele nunca viajou para o estrangeiro. Além disso, para ele, a Literatura não dependia de fatores políticos:
As tradições de Gonçalves Dias, Pôrto-Alegre e Magalhães são assim continuadas pela geração já feita e pela que ainda agora madruga, como aquêles continuaram as de José Basílio da Gama e Santa Rita Durão. Escusado é dizer a vantagem dêste universal acôrdo. Interrrogando a vida brasileira e a natureza americana, prosadores e poetas acharão ali farto manancial de inspiração e irão dando fisionomia própria ao pensamento nacional. Esta outra independência não tem sete de Setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo (1952: 129-30, v. 29).
Posso deduzir que para Machado a literatura não estava vinculada à raça também. O que lhe importava era a construção de uma Literatura Brasileira, com um caráter nacional inserido em um contexto universal. Ele viveu em uma sociedade que buscava sua identidade nacional e esta situação era ambivalente. De um lado, havia um grupo militante que reivindicava a originalidade, entedida como um elemento livre de influências externas (A Escola de Recife chefiada por Sílvio Romero); por outro lado, havia um grupo que criava seus próprios textos originais a partir das idéias estrangeiras (José de Alencar e Machado de Assis).
Machado de Assis percebia essa ambivalência da nação, os problemas acarretados pela noção de "'cópia". Na busca por soluções para os impasses intelectuais ele assumiu uma posição relativista. Tal postura sempre foi questionada tanto pelos críticos seus contemporâneos como por um certo tipo de crítica tradicionalista no presente. Machado de Assis sempre foi uma figura emblemática que se valeu não apenas de um discurso irônico para desmascarar os jogos sociais e políticos da sociedade brasileira oitocentista, mas também por sua visão amarga desse espaço socializado. De acordo com Maria Nazareth Fonseca:
Machado nos dá testemunho do lugar do intelectual mestiço numa sociedade que percebia a mestiçagem como prova do atraso e da inviabilidade do Brasil como nação. O fato mesmo de ele ter-se esquivado da questão, embranquecido de certo modo, é testemunho do lugar que a sociedade legitimava para o intelectual.[6]
Por tudo isso, pode-se pensar que Machado foi construindo em sua imaginação uma "dupla percepção" sobre a vida: os humanos somente percebem suas diferenças através do olhar recebido de um outro. Embora como mulato e pobre, dependente dos favores de sua madrinha, Machado, pelos seus próprios esforços, ultrapassou esta situação precária e servil. Pelo seu trabalho com a linguagem e através do desenvolvimento das técnicas da arte literária, ele se igualou aos mais renomados escritores do mundo e atingiu uma situação de prestígio, status intelectual e posição social, geralmente permitido somente aos brancos.
Machado de Assis freqüentou o mundo dos brancos. Com honestidade e honra, ele alcançou um lugar proeminente na sociedade brasileira de seu tempo. Nélida Piñon, escritora e a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras, disse em uma entrevista:
Se não fosse o Machado, a Academia teria morrido ou seria uma coisa menor. Ele dá uma visão enorme e, quando morre, já morre sendo o escritor mais importante do Brasil. Então, eu costumo repetir uma frase em todos os lugares: "Se Machado de Assis existiu, o Brasil é possível". O Brasil não tem desculpa para o fracasso diante deste homem excepcional. Machado é o povo brasileiro" (1998: 36).
Em sua obra ficcional, Machado, com ironia, denunciou as mazelas da sociedade brasileira do século XIX. Um dos textos mais representativos com respeito a questão da "dupla consciência" é o conto "O Espelho". Nele, Machado expõe a teoria metafísica da duplicidade da alma humana. Frente ao espelho, o protagonista, Jacobina, somente se reconhece através de sua imagem refletida nele. A alma exterior não corresponde à interior, por conseguinte nós vivemos em um mundo exterior das aparências e somente o espelho tem a capacidade, o poder de revelar o oculto Outro. Machado escreveu sobre o Homem. Suas idéias se aproximam do conceito de "double consciousness" de Du Bois: onde alguém se enxerga através da revelação de uma simples olhadela do outro. Du Bois exemplifica esse processo em sua idéia de "double consciousness" a partir da situação do negro na sociedade norte-americana:
After the Egyptian and Indian, the Greek and Roman, the Teuton and Mongolian, the Negro is a sort of seventh son, born with a veil, and gifted with second-sight in this American world, – a world which yields him no true self-consciousness, but only lets him see himself through the revelation of the other world. It is a peculiar sensation, this double-consciousness, this sense of always looking at one's self through the eyes of others, de of measuring one's soul by the tape of a world that looks on in amused contempt and pity (1997: 615).[7]
Stuart Hall apropria-se desse conceito de Du Bois para desenvolver uma discussão paralela em seu ensaio "Culture, Community, Nation" com relação a formação da identidade cultural e dos problemas de hibridação. Como Du Bois, Hall faz uma previsão para o século XXI. Para ele, a questão em pauta será "a capacidade de viver com a diferença" (the capacity to live with difference) (1999:42).
Machado tinha consciência da nossa "diferença" a partir da comparação com a cultura ocidental. Para ele, a construção de uma tradição brasileira, de uma literatura brasileira de cunho nacional, de uma identidade cultural só poderiam ser feitas aos poucos. Neste sentido, sua idéia se aproxima da de Hall: "a identidade é sempre um jogo aberto, complexo, interminável – sempre em construção" (1999: 43).
Assim, como um intelectual híbrido, sem sofrer da "angústia da influência"[8], Machado de Assis foi um estrategista da apropriação de textos alheios. De acordo com Sérgio Bellei, esse tipo de estratégia mantém "um esquilíbrio entre começo e origem" e que "é na atividade de apropriação, afinal de contas, que o escritor [Machado de Assis] consegue tornar-se um homem de seu tempo e de seu país" (1992: 89), e ser um teórico pós-moderno, pois em uma das "reflexões do relojoeiro" evidencia-se um dos temas mais discutidos na pós-modernidade: o da autoria – "Já alguém afirmou que citar a propósito um texto alheio equivale a tê-lo inventado" (1956: 197).
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SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. 4 ed. São Paulo: Duas Cidades, 1992. P. 13-28: As idéias fora do lugar.
[1] Perhaps someday in the future when racial inequalities are eradicated, when racial status is na insignificant ingredient in ones psychological development and position in society, we may ignore racial nomenclature, or at least look upon race as a substantive entity and more as one of many categories of adjectives used in descirbing oneself. Todas as traduções são da autora.
[2]A primeira data é do original e a segunda da tradução brasileira.
[3] Sobre o estudo dessa peça, ver, FERREIRA, 1998.
[4]Título do livro de Lilia Moritz Schwarcz, 1995.
[5] Neste escrito subjazem muitas coisas, as quais, se lidas com paciência, podem mostrar o estranho significado de ser negro aqui, na aurora do século XX. Este significado não é sem interesse para você, Gentil Leitor, pois o problema do século XX é o problema da linhagem étnica.
[6]Esta é uma afirmação da estudiosa das questões ligadas à formação do pensamento racista no Brasil, que foi feita durante nossas trocas de idéias sobre o lugar do intelectual numa sociedade que sempre lidou mal com a cor que tem. Com sua autorização, citei sua opinião, por considerá-la lúcida e esclarecedora. A ela, meus agradecimentos.
[7] Depois dos egípcios e indianos, dos gregos e romanos, dos teutões e mongóis, o negro é um tipo de sétimo filho, nascido com um véu e dotado de uma previsão neste mundo americano ¾ um mundo que fornece a ele não um real constrangimento, mas que somente lhe permite ver-se a si próprio através da revelação do outro mundo. É uma sensação peculiar, este duplo-constrangimento, este sentido de ver a si próprio através do olhar dos outros, de medir sua alma pela aferição de um mundo que o vê com divertido desprezo e piedade.
[8]Ver Harold Bloom. The anxiety of influence, 1973.